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O Impacto da Comunicação do Diagnóstico HIV Positivo:
A Ruptura de Campo Diante da Soropositividade

Capítulo III - Procedimentos para Análise e Coleta de Dados

3.2. Procedimentos para Coleta e Análise dos Dados

3.2.1. A Escolha do Local para a Pesquisa de Campo

3.2.2. Procedimento de Seleção dos Sujeitos

3.2.3. O Procedimento para a Coleta dos Dados
3.2.4. Procedimento de Análise

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3.2.1. A Escolha do Local para a Pesquisa de Campo

O objetivo de estudar o impacto provocado pelo resultado HIV positivo, levou-nos a realizar um levantamento de locais que dedicam seus serviços a soropositivos. Cabe ressaltar que devido a nossa proposta, eliminamos locais de tratamento para pacientes com AIDS e optamos por aqueles que dirigem sua atenção, especificamente a portadores do vírus assintomáticos. Nossa intenção, com esta medida, foi descartar as complicações orgânicas que pudessem comprometer o enfoque deste estudo, que visa pesquisar os desdobramentos subjetivos decorrentes do diagnóstico HIV positivo, nas pessoas que receberam este diagnóstico.

A partir desse critério, verificamos que uma parte das Organizações Não Governamentais (ONGs) e alguns serviços de saúde pública ofereciam condições para que nosso estudo fosse realizado. Considerando-se que integramos o quadro de consultores da Associação para Prevenção e Tratamento da AIDS (APTA), uma Organização Não Governamental e eventualmente entramos em contato com outras organizações congêneres, decidimos evitar a realização das entrevistas nestas entidades. Esta decisão pautou-se por princípios éticos e técnicos, pois entendemos que o campo transferencial, decorrente da situação de uma entrevista em profundidade, poderia comprometer o vínculo que porventura viesse a ser estabelecido em uma relação de outro caráter, assim como nos preocupamos em preservar a identificação das pessoas entrevistadas, que poderiam ficar expostas caso a entrevista ocorresse em locais de sua convivência. Por outro lado, instituições da saúde pública, na maioria das vezes, atendem nos mesmos serviços, tanto pacientes com HIV positivo quanto pessoas com AIDS, fato que, embora não seja necessariamente um impedimento ao nosso trabalho, não condiz inteiramente com os objetivos por nós estabelecidos.

Nossa busca levou-nos ao Ambulatório de Imunodeficiências Secundárias do Serviço de Alergia e Imunologia do Hospital das Clínicas, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (A1IS), que tem como objetivo estudar a história natural147 da infecção pelo HIV, além do atendimento de pacientes soropositivos. O critério para a seleção da clientela deste ambulatório é o de que sejam pacientes portadores do HIV assintomáticos ou pessoas soronegativas que tenham sido expostas ao risco de contaminação, como, por exemplo, parceiros sexuais de pessoas contaminadas. Realizamos algumas reuniões com membros da equipe técnica e com o setor de psicologia do ambulatório e decidimos solicitar permissão para que nossa pesquisa pudesse ser desenvolvida neste ambulatório. A direção e a equipe técnica do ambulatório A1IS, assim como a coordenação geral da Divisão de Psicologia do Hospital das Clínicas (H.C.) aceitaram nossa proposta de pesquisa, que teve início em meados do segundo semestre de 1994.

O ambulatório conta com uma equipe multidisciplinar, embora o contingente de médicos seja maior. Estes médicos estão distribuídos nas seguintes categorias: residentes (duas turmas, cada uma renovada anualmente), assistentes, estagiários (em geral, profissionais de outras instituições), pós-graduandos e professores. Em sua maioria, são profissionais da área de Imunologia ou Infectologia. O serviço conta, também, com uma enfermeira, uma assistente social e dois psicólogos.

A enfermeira realiza um trabalho de orientação aos pacientes e é responsável por discutir a utilização adequada de preservativos, assim como por distribuí-los. A assistente social atua, em geral, oferecendo informações ou providências relacionadas a aspectos trabalhistas, ou a possibilidade de internação ou, ainda, orientando familiares quando necessário. Há uma psicóloga que coordena este setor e presta atendimentos individuais e grupais aos pacientes e outro psicólogo que faz atendimentos individuais e participa da equipe de triagem do ambulatório.

Os pacientes novos são triados e submetidos a exames para iniciarem o acompanhamento. Cada médico é responsável por alguns pacientes e o atendimento é individualizado. Quando necessário, é feito o encaminhamento a outros profissionais.

O ambulatório funciona às terças-feiras, no período da tarde, das 12:00 às 17:00 horas. No final do dia, ocorre uma reunião com participação de toda a equipe, cujo objetivo é discutir tanto as questões relativas ao funcionamento do serviço, quanto as técnicas a serem utilizadas nos procedimentos clínicos. Nesta reunião são realizados também seminários com debates que visam a formação dos residentes, a atualização e a troca de experiências entre os membros da equipe.

Por estar instalado no prédio dos ambulatórios do Hospital das Clínicas, este serviço conta com outros recursos de assistência, no caso de emergências ou necessidade de atendimentos médicos de outras especialidades. Este ambulatório conta ainda com a retaguarda do Laboratório de Imunogenética e Transplante Experimental da Faculdade de Medicina da USP, que realiza exames necessários na profilaxia e tratamento dos pacientes portadores do HIV e com AIDS.

Segundo o Dr. Alberto Duarte, coordenador geral do ambulatório, a história deste serviço teve início em 1981 com a implantação do laboratório. Após dois anos e meio foi inaugurado o ambulatório de Imunologia clínica. A partir do início do atendimento à demanda ficou evidenciado que a principal imunodeficiência em adultos era a infecção pelo HIV que apresentava uma número muito maior de casos do que outras patologias, como por exemplo, as alergias. Apesar do ambulatório continuar prestando serviços na área de imunologia em geral, atualmente é priorizado o estudo da história natural do HIV.

Inicialmente o ambulatório possuía apenas retaguarda dos exames laboratoriais e o trabalho iniciou-se com equipe muito reduzida. Após algum tempo, surgiu a oportunidade de incorporar a pós-graduação para pessoas interessadas em imunologia que tivessem conhecimento de infectologia, com o que o ambulatório ganhou consistência. Até então, só os residentes e Dr. Duarte prestavam atendimentos.

O ambulatório mantém-se apesar das dificuldades, pois faltam alguns especialistas na área médica e na equipe multidisciplinar como um todo. O número de psicólogos, por exemplo, é insuficiente para atender a demanda. Os recursos materiais e financeiros são escassos, como em toda a rede pública, sendo que o Ministério da Saúde e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) colaboram para que o serviço e as pesquisas se mantenham, assim como a Fundação Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), que paga os pós-graduandos. Existem projetos para a ampliação do ambulatório, que incluem a abertura de atendimento para pessoas com doenças sexualmente transmissíveis em geral, e de aconselhamento para adolescentes e adultos de caráter educativo. Outro objetivo é que o ambulatório possa funcionar durante toda a semana.

Atualmente, devido à falta de recursos ao funcionamento semanal e à equipe vinculada principalmente por laços acadêmicos, o ambulatório mantém-se de maneira precária, o que é lamentável sob todos os aspectos, pois o serviço oferecido possibilita aos pacientes realizarem exames periódicos e proporciona o acesso a medidas profiláticas, prolongando o tempo e a qualidade de suas vidas.

Notas

147O conceito de história natural da doença indica a possibilidade de apreender a essência dinâmica de um fenômeno mórbido, e estabelecer suas etapas necessárias, cronologicamente distribuídas. BASTOS, F.I. Ruína e construção: AIDS e drogas injetáveis na cena contemporânea. 1996. p.134.

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3.2.2. Procedimento de Seleção dos Sujeitos

O trabalho de campo foi realizado durante 6 meses, sendo que a primeira entrevista foi feita em outubro de 1994 e a última ocorreu em março de 1995. Após este período continuamos freqüentando regularmente o ambulatório, pois fizemos um contrato com os pacientes entrevistados, que permaneceríamos no ambulatório até o mês de junho de 1995.

Para nossa investigação realizamos uma entrevista com cada paciente, mas nos colocamos à disposição para atendê-los sempre que quisessem, durante o tempo que permanecemos no ambulatório.

Os critérios para seleção dos entrevistados foram elaborados a partir a partir do conhecimento sobre as principais formas de transmissão do HIV em adultos, na década de 90. Os Boletins Epidemiológicos (do Estado de São Paulo e do Brasil), referentes ao período em que nossa pesquisa foi desenvolvida indicavam que a participação relativa das formas de transmissão (endovenosa e sexual) na prevalência de casos de AIDS vinha sofrendo alterações significativas conforme discutido no ítem 3.1.1 desse capítulo. Os casos notificados na época (ver tabelas 1 e 2 no anexo) estavam relacionados majoritariamente à transmissão endovenosa (principalmente por uso de drogas injetáveis com seringas e agulhas compartilhadas) e à contaminação por via sexual.

No que se refere à transmissão sexual, os dados epidemiológicos revelavam, na época, um aumento progressivo do número de casos notificados por contaminação heterossexual, embora ainda houvesse um número significativo de notificações por contaminação via homossexual masculina.

Chama atenção, ainda, o aumento paulatino na porcentagem de casos de AIDS entre as mulheres que passou de 0,9% no período 80-86 para 31,4% em 1994, sendo a principal forma de transmissão a via heterossexual.

Como nosso estudo se refere ao impacto psíquico provocado pelo diagnóstico HIV positivo, pretendemos estabelecer comparações entre sujeitos com experiências variadas, no intuito de investigar se estes fatores interferem na reação dos sujeitos diante do diagnóstico. Embora os dados epidemiológicos tenham servido apenas como referência, pois nosso enfoque é o estudo do psiquismo dos entrevistados. Constituímos cinco categorias de exposição ao risco assim distribuídas:

a) Homossexuais do sexo masculino.

b) Bissexuais do sexo masculino.

c) Heterossexuais do sexo masculino.

d) Heterossexuais do sexo feminino.

e) Usuários de drogas injetáveis.

Diferente da pesquisa quantitativa, a pesquisa qualitativa não se baseia no critério numérico para garantir sua representatividade.148 Nosso estudo é essencialmente qualitativo e se refere à compreensão em profundidade do que é revelado através do discurso dos entrevistados. Estabelecemos como meta três entrevistas por categoria, por considerarmos importante garantir a diversidade para, a partir desta, entender os elementos comparativos do enfrentamento do diagnóstico positivo. Em junho de 1995, quando encerramos o trabalho de campo, havíamos entrevistado doze pacientes e nossa amostra estava distribuída conforme o quadro abaixo:

Quadro 2: Número de entrevistados, segundo categoria de exposição ao risco e sexo, São Paulo, 1995.

 

Categoria de exposição ao risco

Sexo

Heterossexuais

Homossexuais

Bissexuais

Masculino

04

04

01

Feminino

03

-

-

Cabe observar que no ambulatório são raros os pacientes que contraíram o HIV por uso de drogas injetáveis149 e não conseguimos realizar entrevistas com pessoas desta categoria de exposição ao risco, assim como não foram encontrados outros pacientes que se identificassem como bissexuais.

Inicialmente pretendíamos realizar nossa pesquisa apenas com pessoas diagnosticadas há menos de um ano, por considerarmos que a proximidade com a revelação diagnóstica nos ofereceria uma aproximação maior de nosso objeto de estudo: o impacto provocado pelo resultado HIV positivo. Porém, no segundo mês de trabalho de campo, acatamos a sugestão do Dr. Duarte, coordenador do ambulatório, de entrevistarmos também pacientes que soubessem do resultado há mais de um ano, tendo em vista a possibilidade de investigarmos se ao longo do tempo a elaboração sobre o diagnóstico sofre alterações. Portanto, a partir de dezembro de 1994, incluímos nos critérios de seleção, pacientes que souberam do resultado há mais de um ano.

Elaboramos um quadro geral (3) de apresentação de nossa amostra para ilustrar sua composição. Nele estão contidas informações sobre: data da entrevista, sexo, orientação sexual, idade, há quanto tempo o entrevistado sabe do diagnóstico, motivação para realizar o teste, forma como recebeu o resultado e o nome fictício pelo qual será identificado ao longo deste trabalho.

Quadro 3: Relação dos entrevistados constando número de identificação e nome (inicial), data da entrevista, sexo, orientação sexual, idade, tempo do resultado e motivação para o teste.

Nº de Identificação

Nome e Data da Entrevista

Sexo

Orientação Sexual

Idade

Tempo do Resultado

Motivação para o Teste

Devolução

1

Rui

25/10/94

masculino

heterossexual (casado)

25

3 meses

Indicação médica por doenças associadas

Profissional não treinado

2

Geraldo

08/11/94

masculino

heterossexual (casado)

41

9 meses

Indicação médica por doenças associadas

Profissional não treinado

3

Virgílio

08/11/94

masculino

bissexual (solteiro)

30

6 ou 8 meses

Indicação médica por doenças associadas

Profissional treinado

4

José Manoel

22/11/94

masculino

heterossexual (casado)

28

menos de 1 mês

Banco de sangue

Profissional não treinado

5

Andrea

06/12/94

feminino

heterossexual (viúva)

28

4 anos

Parceiro HIV+

Profissional treinado

6

Maurício

06/12/94

masculino

homossexual (solteiro)

30

4 anos

Indicação médica por doenças associadas

Profissional treinado

7

Eliane

13/12/94

feminino

heterossexual (casada)

30

5 meses

Parceiro HIV+

Laboratório

8

Willian

20/12/94

masculino

homossexual (mora c/ ex-parceiro fixo)

33

3 anos e meio

Internação por acidente

Outros

9

Oswaldo

20/12/94

masculino

homossexual (solteiro)

33

6 anos

Voluntário

Profissional treinado

10

Jacira

20/01/95

feminino

heterossexual (viúva)

50

2 anos e meio

Parceiro HIV+

Laboratório

11

Alexandre

14/02/95

masculino

homossexual (mora com parceiro fixo)

39

1 ano e meio

Parceiro HIV+

Profissional treinado

12

Milton

21/03/95

masculino

heterossexual (solteiro)

28

4 anos e meio

Banco de sangue

Profissional não treinado

Nota: Os nomes utilizados para identificar os entrevistados são fictícios, a fim de preservar o anonimato dos mesmos.

 

Notas

148DESLANDES, S.F. citado por Minayo, M.C. de S. (org.) Pesquisa social: teoria, método e criatividade. 1994: p.43.

149Tradicionalmente os usuários de drogas chegam aos serviços de saúde apenas diante de ocorrências de maior gravidade, tais como: crises por overdose, complicações orgânicas decorrentes de uso abusivo de substância psicoativa, problemas com a família (quando esta descobre o uso, ou por brigas), problemas com a polícia ou acidentes. A associação entre uso de drogas e criminalidade favorece que o usuário mantenha sigilo sobre esta prática que permanece, em geral, compartilhada apenas com pessoas que também utilizam a substância. Do mesmo modo que não recorrem aos serviços de saúde para tratamentos, por resistências ou por temerem denúncias ou internações, os usuários de drogas parecem repetir esta atitude no que se refere à profilaxia pelo HIV. Trabalhos internacionais, mais destacadamente em São Francisco, nos Estados Unidos e em algumas cidades da Austrália, têm apresentado bons resultados, enviando agentes de saúde para as ruas com a finalidade de sensibilizar e orientar os usuários, principalmente de drogas injetáveis, a respeito da necessidade de medidas preventivas quanto à infecção pelo HIV (via endovenosa e sexual), assim como, prestando aconselhamento e realizando encaminhamentos para serviços especializados, quando necessário. No Brasil, as tentativas iniciais de trabalhos semelhantes foram frustradas, como por exemplo, na cidade de Santos, onde profissionais de saúde foram processados devido à distribuição de seringas. Atualmente o Ministério da Saúde tem apoiado grupos de prevenção ao HIV/AIDS, especificamente com usuários de drogas injetáveis, sendo que existem projetos em andamento em São Paulo, na Bahia e Porto Alegre.

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3.2.3. O Procedimento para a Coleta dos Dados

O contato com a equipe foi iniciado no mês de setembro de 1994, quando participamos de reuniões com o coordenador geral do ambulatório e com a psicóloga que chefia o setor. Em meados de outubro, apresentamos o projeto de pesquisa para toda a equipe. Após essa etapa, começamos a freqüentar o ambulatório todas as terças-feiras, para realizar entrevistas com os pacientes. Inicialmente convidávamos os entrevistados para um acompanhamento em grupo por seis meses, com encontros semanais e horário fixo. Percebendo que os pacientes recusavam este convite, decidimos por desistir dessa proposta e oferecer disponibilidade para conversas individuais quando fossem ao ambulatório, opção que foi bem aceita por todos.

A recusa ao atendimento em grupo pode ter sido favorecida tanto por motivos práticos, como psíquicos. Na condição de soropositivos, em geral, continuavam com suas atividades rotineiras (pessoais e profissionais) e muitas vezes omitiam o fato de freqüentarem o ambulatório, assim como de estarem contaminados. Um atendimento semanal, durante o dia, era visto como um complicador. Por outro lado, podemos pensar que talvez tenha havido resistência dos entrevistados em participarem de um grupo que pudesse favorecer o contato com suas emoções. Como o trabalho em grupo implicava na presença de outros pacientes soropositivos no mesmo espaço terapêutico, isto pode ter contribuído para que os entrevistados quisessem preservar-se das fantasias mobilizadas sobre a exposição de seus sentimentos, ou ainda, que tenham evitado compartilhar seu diagnóstico com pessoas (e emoções) desconhecidas. Outro fator pode ser considerado: como informávamos que este trabalho teria duração de seis meses, talvez os pacientes tenham evitado iniciar o envolvimento com um grupo que seria interrompido em tempo pré-estabelecido. A partir da reação de recusa dos pacientes para o atendimento em grupo, adaptamos nosso projeto inicial e passamos a atendê-los conforme compareciam ao ambulatório.

Para a realização de nossa pesquisa, utilizamos o método clínico. Este método, como estratégia de investigação foi assim caracterizado por Reuchlin:

O método clínico realmente colheu na prática médica aquilo que constitui sua unidade: a convicção de que apenas um estudo aprofundado de indivíduos isolados, cuja individualidade seja reconhecida e respeitada e que sejam considerados "em situação de evolução", possibilitará a compreensão desses indivíduos e talvez, por intermédio deles, a do homem.150

O método clínico, conforme aponta Reuchlin, permite a compreensão em profundidade e o respeito às questões individuais que consideramos fundamental em nosso estudo.

Utilizamos como técnica a entrevista psicológica, realizada individualmente. A entrevista, segundo Bleger, é um instrumento fundamental do método clínico e é, portanto, uma técnica de investigação científica em psicologia.151 Entendemos, com Bleger, que a entrevista é um meio pelo qual podemos realizar pesquisa científica em psicologia, pois ela é um instrumento dinâmico, que ocorre em relação e viabiliza tanto a obtenção de informações sobre a história do paciente, quanto evidencia através do campo transferencial, elementos da organização psíquica do sujeito.

Foram realizadas entrevistas semi-estruturadas, ou seja, partimos de um roteiro básico (em anexo) de assuntos a serem abordados, mas aprofundamos temas específicos com cada entrevistado conforme considerávamos importante no decorrer da conversa, pois nosso objetivo era rastrear o campo verificando, tanto quanto possível, os aspectos inconscientes.

No início de nosso trabalho, dissemos partir do referencial psicanalítico. Nossa pesquisa baseia-se na análise de entrevistas, o que a diferencia de estudos de caso de pacientes que são atendidos sistematicamente no consultório e não está constituída nem pelo tratamento psicoterápico, nem pelo acompanhamento sistemático dos entrevistados. Embora tenham ocorrido alguns atendimentos esporádicos, estes são distintos não só na quantidade de sessões, mas também no acompanhamento dos casos, na proposta de vínculo estabelecida e na seqüência da elaboração possível de ocorrer entre analisando e analista, que depende do processo de desenvolvimento do campo desta relação. Nossa pesquisa consiste em realizar a interpretação das entrevistas, privilegiando este único contato. A respeito disso podemos recorrer a Joel Birman, quando afirma que:

A experiência psicanalítica admite diversas possibilidades de clínica, desde que nesta diversidade sejam reconhecidas as condições epistemológicas e éticas para a construção do espaço psicanalítico, isto é, uma experiência centrada na fala, na escuta e regulada pelo impacto da transferência.152

Esta afirmação de Birman também reflete nossa experiência de que a escuta, a leitura e a transferência psicanalíticas podem estar presentes mesmo em uma única entrevista. Consideramos ainda que a entrevista é parte integrante da prática analítica e que funciona como uma situação onde se observa parte da vida do paciente, que se desenvolve em relação a nós e frente a nós.153 De fato, pudemos participar neste estudo, de momentos delicados da vida destas pessoas, revelados durante as entrevistas.

Laplanche diferencia a psicanálise clínica da psicanálise fora do tratamento, a psicanálise aplicada, ou transposta, ou ainda extramuros154 (grifo nosso). O autor utiliza estes termos ao referir-se à pesquisa na área da psicanálise, que difere do tratamento psicanalítico realizado em consultório ou em instituições.

Podemos assim, incluir a nossa pesquisa na área da Psicanálise. A escuta que temos da fala dos entrevistados, assim como o que entendemos por campo transferencial e o que enfocamos na análise das entrevistas são elementos constituídos a partir da prática clínica, o que inevitavelmente proporciona, às possíveis interpretações, uma leitura enriquecida por este campo. As entrevistas serão analisadas através da abordagem proposta pela Teoria dos Campos.

O contato inicial com os pacientes foi estabelecido pessoalmente, no ambulatório. Os profissionais que compunham a equipe, várias vezes favoreceram a aproximação, apresentando-nos aos pacientes. Durante a apresentação, informávamos que estávamos fazendo uma pesquisa na área da psicologia e os convidávamos a participar. Nossas entrevistas foram realizadas apenas com as pessoas que apresentaram disponibilidade em colaborar com o estudo. O recurso da gravação facilitou o registro das falas e garantimos sigilo ético e anonimato aos entrevistados.

Cabe observar que os prontuários dos pacientes foram consultados para complementar dados de identificação e histórico clínico.

Notas

150REUCHLIN, M. citado por FERREIRA, C.V. de L. Conversando com o paciente HIV positivo: um estudo clínico. Tese de doutorado. 1992: p.76.

151BLEGER, J. Temas de psicologia: entrevistas e grupos. 1980: p.9.

152BIRMAN, J. Psicanálise, ciência e cultura. 1994: p.27.

153BLEGER, J. Temas de psicologia: entrevistas e grupos. 1980: p.15.

154LAPLANCHE, J. A tina: a transcendência da transferência. 1993: p.171-4.

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3.2.4. Procedimento de Análise

A partir do objetivo de pesquisar as repercussões pessoais da revelação do resultado HIV positivo na organização psíquica dos sujeitos que receberam este diagnóstico e de rastrearmos o campo constituinte e constituído tanto quanto o possível, fomos levados a formular quatro perguntas, que nortearão a análise deste trabalho. Iniciaremos pelo estudo do panorama geral oferecido pelo material clínico, obtido nas entrevistas e em cada questão estudada, vamos nos deter mais especificamente em um caso - recorrendo às demais entrevistas para a ampliação da análise de cada ítem. Para a seleção dos casos analisados em cada pergunta, escolhemos entrevistas que pudessem evidenciar os aspectos estudados, de acordo com o tema.

As perguntas formuladas para a análise serão estudadas nos capítulos 4, 5, 6 e 7:


Capítulo 4: Qual a influência da consciência da proximidade do risco na reação do sujeito ao resultado HIV positivo?

Considerando-se tudo o que tem sido divulgado a respeito dos comportamentos de risco, desde o início da epidemia, pretendemos verificar se este fator propiciaria condições diferentes aos sujeitos, no momento do diagnóstico, ou seja, se as oportunidades de elaboração sobre o risco de contaminação ofereceram possibilidades de suporte aos sujeitos que já haviam concebido a hipótese de estarem infectados. Selecionamos para o estudo desta questão, a entrevista de Eliane.


Capítulo 5: Como a ruptura de campo do momento do resultado interferem no campo constituído após o diagnóstico?

A partir do relato dos pacientes sobre o momento do resultado, pretendemos analisar o campo constituído após o diagnóstico, verificando as representações referentes ao momento da comunicação do HIV positivo. O caso de Jacira será analisado nesse capítulo.


Capítulo 6: A forma como é revelado o diagnóstico interfere no psiquismo do sujeito?

Nesse capítulo iremos analisar as representações dos pacientes sobre a forma como foi dada a notícia e discutir as implicações da postura do profissional no momento do diagnóstico. Na análise desse capítulo apresentaremos o caso de José Manoel.


Capítulo 7: A organização psíquica após o diagnóstico, uma questão de tempo?

Ao nos referirmos ao procedimento de escolha dos sujeitos, dissemos que, inicialmente, pretendíamos entrevistar pessoas que tivessem recebido o resultado há menos de um ano, mas optamos por verificar se o tempo decorrido após o resultado positivo seria um fator significativo na elaboração do sujeito a respeito do diagnóstico.

Felícia Knobloch, em seu estudo O tempo traumático,155 aponta que no trauma há uma alteração da esfera temporal no que se refere à dimensão psíquica do tempo. Aborda que a temporalidade no trauma é única, fora do tempo cronológico. No decorrer de nossas entrevistas, e nas reflexões que as sucederam pudemos perceber que no relato dos pacientes havia uma alteração do horizonte temporal, quando se referiam ao momento da notícia do resultado positivo. Com a finalidade de ampliar nossa compreensão sobre este aspecto, decidimos analisar a entrevista de Virgílio.

Notas

155KNOBLOCH, F. O tempo do traumático. Dissertação de Mestrado. 1994.

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