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O Impacto da Comunicação do Diagnóstico HIV Positivo:
A Ruptura de Campo Diante da Soropositividade

Capítulo II - Referencial Teórico

2.3. Trauma

Descrevemos como "traumáticas" quaisquer excitações provindas de fora que sejam suficientemente poderosas para atravessar o escudo protetor. Parece-me que o conceito de trauma implica necessariamente numa conexão desse tipo com uma ruptura numa barreira sob outros aspectos eficaz contra os estímulos. Um acontecimento como um trauma externo está destinado a provocar um distúrbio em grande escala no funcionamento da energia do organismo e a colocar em movimento todas as medidas defensivas possíveis (grifos nossos).83

Sigmund Freud

 

Ao longo da vida, Freud faz várias modificações a respeito da etiologia do trauma. Desde 1893 encontramos a denominação neurose traumática relacionada, naquela época, à histeria.84 Não iremos comentar aqui as transformações deste conceito na obra freudiana pois nos concentraremos nos avanços realizados a partir de 1920.

Freud, em Além do princípio do prazer, reformula a teoria do trauma, na qual vincula-o ao aumento de recepção de excitações externas e internas no aparelho mental. Ele parte da concepção de um escudo protetor na camada superficial do aparato psíquico, que o preserva da intensidade dos estímulos externos; prossegue afirmando que, no interior do aparelho, as excitações das camadas mais profundas estendem-se para o sistema diretamente e em quantidade não reduzida, até onde algumas de suas características dão origem a sentimentos da série prazer-desprazer.85

Avança, porém, dizendo que são consideradas "traumáticas" as excitações provindas de fora que sejam suficientemente poderosas para atravessar o escudo protetor.86 O princípio do prazer neste caso fica posto fora de ação e o aparelho mental é invadido por grande quantidade de estímulos que irrompem a camada protetora. Esta ruptura afeta o aparelho psíquico, que se desequilibra devido ao fluxo de energia que não pode controlar. Na tentativa de recuperação do equilíbrio energético, há uma concentração de energia nos arredores da ruptura e, como conseqüência, todos os outros sistemas psíquicos são empobrecidos, de maneira que as funções psíquicas remanescentes são grandemente paralisadas ou reduzidas.87 Neste texto, ao mesmo tempo que Freud fala sobre o aumento quantitativo das excitações no aparelho psíquico, também aborda o aspecto qualitativo, apontando, por exemplo, para a natureza da amplitude da excitação.

Em Além do Princípio do Prazer Freud coloca que as excitações internas que provocam desprazer são tratadas como se não fossem de dentro, mas de fora,88 poderíamos dizer, como se fossem do além, possibilitando assim que o escudo defenda-se contra elas. Aponta que é essa a origem da projeção.89

Em 1915, no texto O Inconsciente, ao referir-se à fuga fóbica, Freud expõe que o perigo pulsional é projetado para fora sempre que o mecanismo de defesa é posto em atividade, pois o ego conduz-se como se a ameaça de desenvolvimento da angústia não procedesse de um impulso pulsional, mas de uma percepção, e pode, portanto, reagir contra esta ameaça exterior por meio das tentativas de fuga que supõe as evitações de fobia. Prossegue dizendo que se esse processo repressivo tem êxito e coloca um dique na gênese da angústia, é somente ao custo de graves sacrifícios da liberdade pessoal .90

A projeção seria então uma tentativa de manter o controle frente a uma ameaça interna. Ao analisarmos as entrevistas, nos deparamos com falas sobre suicídio, principalmente nos pacientes que receberam o diagnóstico HIV positivo há menos de um ano, como se na tentativa de controlar, tanto o medo da morte real, quanto a angústia de morte, buscassem retomar o controle através das idéias de suicídio, reagindo fobicamente diante de um diagnóstico que é tido como incurável, devido à presença de um vírus que, após a entrada no organismo, teoricamente não tem saída, a não ser pela morte do paciente.

Nas Lições Introdutórias à Psicanálise, apresentadas em 1916, o conceito de séries complementares, utilizado por Freud para explicar a etiologia das neuroses, contém esclarecimentos sobre o traumatismo que consideramos pertinente para nosso estudo, por relacionar os mecanismos de fixação e de regressão ao trauma.

Ao abordar a fixação da libido do adulto, Freud recorre aos fatores constitucionais que, para a formação dos sistemas neuróticos, seriam compostos de disposição hereditária e disposição adquirida na primeira infância,91 ou seja, aos fatores hereditários, somar-se-iam os sucessos acidentais da primeira infância. Afirma que apenas quando a libido é expulsa de suas posições mais avançadas é que retorna aos sucessos infantis. O conceito de séries complementares apresenta-se então, relacionado à existência de fixações infantis, que ocorreram devido a cristalizações da libido, na convergência entre os fatores constitucionais e os sucessos acidentais. Em condições nas quais a libido é expulsa, em uma fase posterior, retornaria para estes pontos de fixação; assim, quando algum acidente na vida adulta ameaça os estágios mais avançados da estabilidade psíquica e esta não pode ser mantida, o sujeito regride para fases anteriores da organização libidinal.

Laplanche esclarece que o conceito de série complementar permite a Freud não ter que optar entre fatores endógenos e exógenos na determinação etiológica das neuroses. O fator exógeno seria a frustração, enquanto o endógeno seria a fixação e estariam em razão inversa: para que a neurose se desencadeie pode bastar um traumatismo mínimo no caso de a fixação ser forte e vice versa.92

Quando dissemos, no ítem anterior do capítulo que na ruptura de campo se evidencia a lógica das emoções, compreendemos que a ruptura na superfície representacional evidenciaria os pilares de sustentação do campo constituído anteriormente. Na ruptura, portanto, também ocorreria a regressão a fixações anteriores. Faz-se necessário esclarecer que não consideramos ruptura de campo sinônimo de trauma, mesmo porquê, como aponta Herrmann, o processo de ruptura de campo é a demonstração de camadas estruturantes da organização da consciência.93 Ao nosso ver, todo trauma, no momento em que ocorre, implica necessariamente uma ruptura de campo mas nem toda ruptura de campo é traumática. Aliás, se tomarmos o terreno no qual este conceito opera principalmente, segundo a Teoria dos Campos, a sessão de análise raramente constitui-se como situação traumática.

Em Além do princípio do prazer, Freud atribui ao susto e à ameaça da vida relevante papel etiológico no trauma. Sobre o susto, argumenta que se caracteriza pela falta de qualquer preparação para a angústia.94 Considera que a preparação para a angústia é fator decisivo na determinação do resultado, mas faz a seguinte ressalva: onde a intensidade do trauma exceda certo limite, esse fator indubitavelmente deixa de ter importância,95 destacando a relevância da ordem econômica no trauma.

Posteriormente, em 1926, no texto Inibição, sintoma e angústia, Freud retoma a compreensão de angústia relacionada ao trauma. Refere-se à presença da angústia frente ao perigo, apresentando a diferenciação entre angústia real - a angústia frente a um perigo conhecido - e a angústia neurótica - angústia frente ao perigo que não conhecemos.96 Porém, comenta que a angústia real e a angústia neurótica podem entrelaçar-se, pois ao perigo real conhecido, se enlaça um perigo pulsional desconhecido.97 Para Freud, diante da magnitude do perigo, nos deparamos com o desamparo: com o nosso desamparo material, no caso do perigo real, e com o nosso desamparo psíquico, no caso do perigo pulsional.98 Freud chama de situação traumática a esta situação de desamparo realmente experimentada.

O sinal de angústia, relacionado à preparação para o perigo, possibilitaria ao sujeito prevenir-se por estar em expectativa do trauma. O sinal de angústia apresentaria, então, um caráter de auto-conservação. Porém, diante do perigo e do desamparo estabelecido pelo trauma, a angústia reapareceria. Assim, a angústia é a reação primitiva ao desamparo no trauma, reação que é imediatamente reproduzida como sinal de socorro na situação perigosa.99

Cabe reiterar que diante do perigo externo há uma reação interna que pode inundar o aparelho psíquico, relacionada com o funcionamento mental do sujeito, ou ainda, como esclarece Freud:

Dito de forma mais geral, o que o ego considera como perigo, e ao que responde com o sinal de angústia, é a cólera do superego ou o castigo que o mesmo pode impor-lhe, ou a perda de seu amor. A última transformação deste medo do superego parece-me o medo da morte (pela vida), ou seja, a angústia ante a projeção do superego nos poderes do destino.100

Nossa pesquisa enfoca pacientes que receberam o resultado positivo para o HIV, diagnóstico que, além de associado à possibilidade de morte, é carregado de preconceitos sociais. A decorrência pressuposta, da infecção pelo HIV é a AIDS que, no início da epidemia, foi relacionada à peste e até hoje ainda o é; nos meios fanáticos religiosos e em muitas camadas da população, é tida como castigo de Deus às atividades (e pessoas que as praticam) consideradas demoníacas.

Podemos então apontar que o sujeito, diante do diagnóstico HIV positivo, que representa perigo enquanto adversidade do destino, depara-se com a angústia mobilizada internamente. Portanto, se ocorre uma invasão externa, esta também detona simultaneamente outra, a partir do interior do aparelho psíquico. Como conseqüência, há um aumento de tensão que provoca empobrecimento das demais funções psíquicas.

O aumento de tensão no trauma indica que os mecanismos de defesa falharam e que a barreira de proteção contra estímulos do aparelho psíquico foi insuficiente para amortecer o choque. As defesas romperam-se, acarretando o empobrecimento das outras funções psíquicas pois, com o aumento de energia, o ego corre o risco de ser inundado (por energia externa ou interna) e as fortificações que continuam a protegê-lo podem ser também rompidas.

Na tentativa de controlar a angústia há um estreitamento do campo da consciência, pois toda energia psíquica fica concentrada na ruptura para proteger o psiquismo da intensidade a que foi submetido. Quando a barreira de proteção contra estímulos é perfurada, as instâncias reguladoras da ordem representacional desorganizam-se, colocando em risco toda a subjetividade. O sujeito é tomado por angústia de morte. É a vida que está ameaçada.

Ferenczi dedicou parte de seus estudos em psicanálise, aos momentos de crise vivenciados pelos pacientes. Sobre trauma, comenta que diante do choque emocional há uma decepção causada pela perda de segurança, anteriormente estabelecida pelo sujeito:

A comoção psíquica sobrevém sempre sem preparação. Teve que ser precedida pelo sentimento de estar seguro de si, no qual, em conseqüência dos eventos, a pessoa sentiu-se decepcionada; antes, tinha excesso de confiança em si e no mundo circundante; depois, muito pouca ou nenhuma. Subestimou a sua própria força e viveu na louca ilusão de que tal coisa não podia acontecer; "não a mim".101

Ao referir-se à decepção, Ferenczi aborda a mudança de referências do sujeito sobre si mesmo que, diante do acontecimento, perde a confiança que tinha em si e no mundo. Prossegue dizendo que a conseqüência imediata é a angústia, que provoca aumento de desprazer. Sugere então, que a necessidade do alívio é oferecida pela autodestruição. Afirma ainda que o mais fácil de destruir em nós é a consciência, a coesão das formações psíquicas numa entidade: é assim que nasce a desorientação psíquica.102

Na apresentação da Teoria dos Campos, dissemos que a crença tem função fundamental, para que se mantenha a organização do campo; seu papel é censurar o acesso de representações conflitantes à consciência. Ferenczi aqui refere-se à decepção, causada pela perda de confiança em si e pelo malogro da esperança. Quando expressa que tal coisa não podia acontecer, não a mim, está descrevendo o inacreditável que poderia dar origem à suspeita ou à dúvida representacional que, segundo Herrmann, constituem a crise da função da crença.

Para Ferenczi, o desdobramento imediato do trauma é a fragmentação que ocorre devido a algumas vantagens:

a) pela criação de superfícies maiores contra o mundo circundante, pela possibilidade de uma descarga afetiva aumentada; b) sob o ângulo psicológico: o abandono da concentração, da percepção unificada faz desaparecer, pelo menos, o sofrimento simultâneo de um desprazer com múltiplas faces. Cada fragmento sofre por si mesmo; a unificação insuportável de todas as qualidades e quantidades de sofrimento é eliminada; c) a ausência de uma integração superior; a cessação da inter-relação dos fragmentos de dor permite a cada um dos fragmentos uma adaptabilidade maior.103

Ferenczi aponta a fragmentação como uma tentativa de suportar o impacto. O sujeito teria assim a possibilidade de diluir o sofrimento para se restabelecer. Inicialmente a consciência, tal como estava estabelecida antes, é destruída e se isto não é suficiente para cessar a dor, destrói a própria vida.

Felícia Knobloch, no estudo O tempo do traumático, aponta que com Ferenczi estaríamos no campo da clivagem, não no campo do recalque,104 ou seja, o trauma não é necessariamente a repetição de um trauma original recalcado que retorna, mas um acontecimento que se constitui enquanto marca no aparelho psíquico pela impossibilidade de ser superado ou representado imediatamente.

Segundo Knobloch, Ferenczi ao desenvolver sua teoria sobre o trauma argumenta que na infância, além do complexo de Édipo, a criança estaria exposta à linguagem da paixão dos adultos, incompreensível para ela. Aponta que as punições constituem uma tendência incestuosa dos adultos, que a criança não compreende e sofre violento choque, pois a demanda sexual na infância estaria relacionada à busca de ternura e brincadeira. O adulto desmente a realidade vivenciada pela criança que, ao buscar confirmação desta realidade, recebe como resposta isto não é nada, isto não aconteceu. É esta incompreensão ou melhor, este desmentido, esta negação por parte do adulto de que algo de fato ocorreu para esta criança que inviabiliza a inscrição psíquica de todo o evento traumático.105 A falta de sentido mobiliza a criança a buscar o sentido que o adulto dá devido à identificação com ele - mesmo sem entender do que se trata. Assim, a criança depara-se permanentemente com o desconhecido, tanto pela complexidade inacessível do adulto, quanto por ele ser o portador de novas formas de ser.106

O trauma visto sob esta ótica oferece-nos a possibilidade de refletir sobre a relação transferencial no momento da comunicação do diagnóstico HIV positivo, no qual o paciente é exposto a uma informação que lhe revela uma nova forma de ser. Mesmo para os pacientes que desconfiam que o resultado será positivo, esta hipótese torna-se realidade, com a confirmação do exame. É um momento de maior vulnerabilidade e a busca de sentido para seu estado emocional é depositada no profissional de saúde, em geral o médico, que pode oferecer algum referencial diante do desconhecido. A negação das emoções do paciente pode acarretar-lhe choque ainda maior. No quinto capítulo, retornaremos a este assunto ao analisarmos o momento do diagnóstico.

Por hora, cabe ainda comentar que Knobloch aborda o sofrimento psíquico relacionado ao trauma:

O trauma, segundo Ferenczi, é o problema da dor, da dor vinculada à experiência de morte, dor-morte. Dor é a impossibilidade de representação. O sujeito fica impactado pela presença da morte, ele está em "presença" da morte. Insisto na expressão "em presença", pois aí não atua o contraste passado-presente-futuro, está-se diante de uma experiência bruta (de um excesso) que não foi temporalizada, ou seja, não teríamos aí uma temporalidade historicizada.107

A intensidade diante da presença da morte é irrepresentável. A possibilidade de representação seria a posteriori, após o acontecimento traumatizante, quando então seria viável um processo de elaboração. No trabalho de Knobloch há um destaque para a questão da temporalidade, que no trauma se torna apartada da temporalidade cronológica. Poderíamos dizer que o trauma rompe com a dimensão temporal por irromper na história de vida do sujeito que, a partir do acontecimento, também muda. Percebemos em nossos pacientes, que a temporalidade referente à época do diagnóstico é imprecisa, confusa. Conforme aponta Knobloch, poderíamos verificar por meio do relato dos entrevistados, que há um tempo à parte. Falha sintomática, que denuncia alteração do horizonte temporal.

A proposta de pesquisar as repercussões pessoais da revelação do resultado HIV positivo na organização psíquica dos sujeitos consiste em buscar, no terreno dos possíveis, as variáveis que possam estar implicadas na constituição do novo campo fertilizado com o diagnóstico. Tomamos como pressuposto, que a comunicação diagnóstica é traumática. Esta concepção, baseia-se também, além das condições individuais, no caráter atribuído pelo sujeito cultural, à contaminação pelo HIV/AIDS, considerando-se tudo o que tem sido dito sobre a síndrome desde o começo da epidemia. É certo que o alto índice de letalidade e a aparência cadavérica dos doentes terminais, principalmente nos primeiros anos, após a divulgação da nova doença, contribuiu para que fosse associada com a morte e suas assombrações. Contudo, não podemos desprezar que o estigma que envolve o HIV/AIDS não se restringe ao fantasma da morte. Não que a morte seja secundária, pois embora seja nossa única certeza absoluta na vida, continua desconhecida e assustadora. O que estamos afirmando, porém é que além da fatalidade de se deparar com a idéia da própria morte, outro fator também importa - ao menos enquanto se está vivo - saber como se morre, ou de quê se morre, ou ainda como se vive com um diagnóstico culturalmente rejeitado.

Somando-se ao que foi dito até agora, Jurandir Freire Costa demonstra que uma das reviravoltas teóricas do texto freudiano Além do princípio do prazer é que:

Freud mostra como "o externo, o extrapsíquico" transforma-se em "interno, intrapsíquico". O choque mecânico liberaria um "quantum" de excitação sexual que passaria a agir do interior do psiquismo, com a capacidade de exercer uma ação traumática. Temos a tradução econômica, em termos metapsicológicos, da forma como "a realidade exterior" torna-se "realidade psíquica".108

O excesso quantitativo do traumatismo provoca, portanto, concomitantemente, uma alteração qualitativa na ordem representacional do aparato psíquico. Ao considerarmos que o extrapsíquico transforma-se em intrapsíquico, entendemos que, em nosso estudo, isto está relacionado às representações sobre AIDS na cultura que, com o diagnóstico, inserem-se na realidade e identidade do sujeito.

As representações que o sujeito tem da AIDS agora introduzem-se como elementos referentes a si mesmo, ao identificar-se como portador do vírus. A notícia do HIV positivo expressa, além da dificuldade de controlar o que ocorre consigo, a impossibilidade de reconhecer-se de imediato. As conotações atribuídas à AIDS, vinculadas a sexo promíscuo e morte breve (e degenerativa) atingem o narcisismo do sujeito. Dois dos pacientes entrevistados utilizaram a metáfora estar bichado, após o diagnóstico. A imagem que tem de si contém agora a marca da degeneração, da bichação.

Laplanche aponta que em Freud

... a idéia de um narcisismo contemporâneo da formação do ego por identificação com outrem (...) é denominada narcisismo secundário (...): "A libido que aflui ao ego pelas identificações (...) representa o seu narcisismo secundário". O narcisismo do ego é um narcisismo secundário retirado aos objetos.109

No narcisismo secundário, os investimentos retirados dos objetos é que recarregam a libido do ego. Com a notícia do HIV positivo, que é associada imediatamente à AIDS (associação encontrada no discurso de todos os pacientes entrevistados), o sujeito identifica-se com a imagem que possui do doente de AIDS. É esta imagem que reveste o ego quando o sujeito descobre-se portador do HIV e, na maioria das vezes, é insuportável num primeiro momento. Afora uma fratura narcísica, provoca um desequilíbrio das funções reguladoras do ego. No trauma, como vimos em Freud, o princípio prazer-desprazer é colocado fora de ação. O ego, tomado por angústia de morte, ameaçado pela ruptura e desorganização completa, regride.

O ego, ao falhar em sua função defensiva, recorre a mecanismos anteriores de organização, para tentar se assegurar, buscando suporte nos exércitos consolidados nas fixações anteriormente constituídas, de maneira a enfrentar, ao menos em parte, a nova realidade. Como os mecanismos de defesa falharam, o ego fica remetido novamente a uma posição já superada. Sem os sustentáculos do seu atual desenvolvimento, retorna a uma condição anterior de dúvidas, ameaças, falta de respostas, confusão: vulnerável às pulsões, ao mundo e à cólera do superego. Vimos em Freud que o ego, diante das desgraças do destino, projeta nestas a cólera do superego e fica vulnerável aos castigos e à perda do amor, ou seja, ao desamparo.

Porém, a adversidade do destino mobiliza o sentimento de culpa pelo fracasso. Freud em Luto e melancolia aprofundou o conceito de sentimento de culpa. Laplanche e Pontalis, ao referirem-se a esse tema, comentam:

É sabido que esta afecção é nomeadamente caracterizada por auto-acusações, uma autodepreciação, uma tendência para a autopunição que pode levar ao suicídio. Freud mostra que existe aqui uma verdadeira clivagem do ego entre acusador (o superego) e acusado, clivagem que, por um processo de interiorização, resulta também de uma relação inter-subjetiva: "... as auto-recriminações são recriminações contra um objecto de amor, que são retornadas deste para o próprio ego...".110

Com as falhas evidenciadas dos mecanismos de defesa, o que está ameaçado é todo o processo secundário de elaboração. Se por um lado o ego retorna a pontos de fixação anteriores, por outro, a identidade atual está comprometida. Nos pacientes entrevistados, observamos que após o diagnóstico não conseguiam mais cumprir suas tarefas profissionais, vários pararam de trabalhar por um tempo e de exercerem outras atividades de seu quotidiano anterior.

Entendemos que a diminuição da capacidade laborativa e da sublimação deve-se ao fato do ego necessitar de toda sua energia para tentar reorganizar-se.

A este respeito, Jurandir Freire Costa comenta que:

Laplanche (...) diz que em traumatismos desta proporção não existe, como pensava Freud, uma simples "fixação ao trauma", mas uma tentativa de "fixação do trauma". Prossegue argumentando que: a diferença do traumatismo infantil, que não chegava a romper a "para-excitação" egóica, este segundo tipo de traumatismo não resolve conforme o princípio do prazer-desprazer, ou seja, evacuando a carga libidinal. O modelo resolutivo deste traumatismo é o "modelo da dor". Assim como Freud descreveu o superinvestimento narcísico do órgão lesado, assim se daria no registro psíquico, a reação ao traumatismo intenso. O psiquismo despreparado, em confronto com o estímulo de grande intensidade, lança-se à tarefa de "ligar" psiquicamente a excitação, para não ser invadido e desestruturado por ela. O ego "fixa-se ao trauma, porque, antes de mais nada, tenta fixar o trauma". (...) Como não é mais possível impedir a invasão do aparelho psíquico por grandes quantidades de excitação, só resta ao nosso organismo uma saída: "dominar a excitação, ligar psiquicamente as somas de excitação que penetraram através do rompimento para, em seguida, liquidá-las progressivamente".

O traumatismo intenso leva o psiquismo a "ligar as somas de excitação" e posteriormente fixá-las como na dor. Ao contrário do traumatismo infantil que é "evacuado", na obtenção do prazer, a excitação excessiva é aqui "bloqueada, imobilizada no local".111

A tentativa de fixação do trauma conforme argumenta Costa, estaria relacionada à reorganização do ego e está associada também à repetição do trauma, afirmada por Freud em Além do princípio do prazer, que caracterizaria os pesadelos repetitivos das neuroses de guerra.

Em nosso estudo não verificamos a repetição nos sonhos, mas os pacientes referiram-se às lembranças repetitivas nos momentos de tristeza, quando assistem propagandas de televisão sobre AIDS ou mesmo cada vez que usam preservativos nas relações sexuais. Isto foi observado principalmente nos pacientes que receberam o resultado há menos de um ano. Por outro lado, os pacientes que sabem do diagnóstico, há mais tempo, disseram reviver a situação do momento do diagnóstico quando ocorrem complicações associadas à infecção, como por exemplo, quando o exame CD4 revela baixa no sistema imunitário ou no momento em que o médico prescreve a introdução ou alteração de medicamentos ou ainda, quando o paciente ou algum amigo com AIDS necessita de uma internação. Nestas referências pudemos perceber um movimento de repetição do acontecimento traumatizante.

Costa afirma também que na dor há uma sobrecarga do sistema defensivo, no intuito de superá-la. Ao referir-se à economia da dor, aponta que o ego investe narcisicamente o corpo, tanto para estabelecer ou restaurar a experiência de satisfação, quanto para controlar ou extinguir a experiência da dor.112

Este autor estabelece uma analogia entre a sobrecarga do psiquismo diante da experiência da dor e a violência, definida por ele como toda ação traumática que conduz o psiquismo ou a desestruturar-se completamente ou a responder ao trauma através de mecanismos de defesa análogos à "economia da dor".113 Portanto, segundo Costa o traumatismo é uma experiência de violência para o sujeito. O que pudemos analisar nos pacientes entrevistados é que, na maior parte das vezes, o resultado HIV positivo provoca uma intensa necessidade de reorganização do ego e que, de maneira similar à experiência da dor, o sujeito ao receber o diagnóstico sente-se violentado.

Na Teoria dos Campos, Herrmann define trauma como nó do desejo que delimita a lógica emocional, repetindo-se em relação ao analista. A este resta tentar desembaraçar os nós através da interpretação.114 Quando se refere ao trauma, neste caso está aludindo à ação no presente, de um trauma passado, que continua a demarcar as formas emocionais. Afirma que as formas emocionais que nos dão uma identidade são também as que a limitam, para o bem ou para o mal.115 Ao nosso ver, o futuro do trauma que ocorreu no presente é também tornar-se , quando pertencer ao passado. A natureza da amplitude da excitação referida por Freud, indica para a qualidade e densidade do , que restringe, distorce e recompõe a trilha do desejo.

Embora nosso estudo não se refira especificamente à área psicossomática, cabe comentar que a pesquisa bibliográfica nos levou ao encontro da teoria proposta por Pierre Marty.116 Esta teoria se origina na psicanálise e nos chamou a atenção pela correlação que estabelece entre traumatismo e regressão somática. Como estamos investigando o impacto provocado pela comunicação do diagnóstico positivo para o HIV - que em dez dos doze casos estudados foi traumática - e como o paciente portador do HIV, por definição, apresenta maior vulnerabilidade ao risco de adoecimento, consideramos importante acrescentar a seguinte indagação: se a forma como o sujeito recebe o diagnóstico pode favorecer ou não a possibilidade de adoecimento nesses pacientes. Ao analisarmos o momento do diagnóstico no quinto capítulo, retomaremos esta reflexão, bem como na conclusão, pois este questionamento não é nosso ponto de partida mas complementa nosso ponto de chegada.

Diante do que expusemos neste capítulo, consideramos que os operadores principais deste estudo, ou seja, os conceitos de trauma, campo e ruptura de campo estão apresentados, embora não pretendamos esgotá-los, mesmo porquê escaparia de nosso alcance e fugiria de nosso objetivo que é buscar, tanto quanto possível através da análise das entrevistas, rastrear o campo constituinte e constituído no caminho do saber sobre a soropositividade, percorrido pelos entrevistados.

Notas

83FREUD, S. Além do princípio do prazer (1920). In: Pequena coleção das Obras de Freud. 1975: p.43.

84KNOBLOCH, F. O tempo do traumático. Dissertação de Mestrado. 1994: p.18.

85FREUD, S. Além do princípio do prazer (1920). In: Pequena coleção das Obras de Freud. 1975: p.42.

86FREUD, S. Além do princípio do prazer (1920). In: Pequena coleção das Obras de Freud. 1975: p.43.

87FREUD, S. Além do princípio do prazer (1920). In: Pequena coleção das Obras de Freud. 1975: p.44.

88FREUD, S. Além do princípio do prazer (1920). In: Pequena coleção das Obras de Freud. 1975:p.43

89FREUD, S. O Inconsciente (1915). In: Obras Completas. 1981:p.2071. v.2.

90FREUD, S. O Inconsciente (1915). In: Obras Completas 1981:p.2071. v.2.

91FREUD, S. Lecciones introductorias al psicoanalisis (1915-17): leccion 23 - Vias de formacion de sintomas. In: Obras Completas. 1981: p.2348-9. v.2.

92LAPLANCHE, J. e PONTALIS, J.B. Vocabulário de psicanálise. 1970: p. 618-9.

93HERRMANN, F. Divã a Passeio. 1992: p 18.

94FREUD, S. Além do princípio do prazer (1920). In: Pequena coleção das Obras de Freud. 1975: p.45. (O texto da Editora Imago apresenta a palavra ansiedade; porém, por entendermos que se trata do conceito de angústia, optamos por utilizá-la, conforme aparece na edição da Biblioteca Nueva).

95FREUD, S. Além do princípio do prazer (1920). In: Pequena coleção das Obras de Freud. 1975: p.46.

96FREUD, S. Inhibicion, sintoma y angustia (1926). In: Obras Completas. 1981: p.2878. v.3.

97FREUD, S. Inhibicion, sintoma y angustia (1926). In: Obras Completas. 1981: p.2879. v.3.

98FREUD, S. Inhibicion, sintoma y angustia (1926). In: Obras Completas. 1981: p.2879. v.3.

99FREUD, S. Inhibicion, sintoma y angustia (1926). In: Obras Completas. 1981: p.2879. v.3.

100FREUD, S. Inhibicion, sintoma y angustia (1926). In: Obras Completas. 1981: p.2864. v.3.

101FERENCZI, S. Obras completas. 1992: p.109-10. v.4.

102FERENCZI, S. Obras completas. 1992: p.111. v.4.

103FERENCZI, S. Obras completas. 1992: p.248. v.4.

104KNOBLOCH, F. O tempo do traumático. Dissertação de Mestrado. 1994: p.96.

105KNOBLOCH, F. O tempo do traumático. Dissertação de Mestrado. 1994: p.32-3.

106KNOBLOCH, F. O tempo do traumático. Dissertação de Mestrado. 1994: p.34.

107KNOBLOCH, F. O tempo do traumático. Dissertação de Mestrado. 1994: p.96.

108COSTA, J.F. Violência e psicanálise. 1984: p.166.

109LAPLANCHE, J. e PONTALIS, J.B. Vocabulário de psicanálise. 1970: p.367.

110LAPLANCHE, J. e PONTALIS, J.B. Vocabulário de psicanálise. 1970: p.615.

111COSTA, J.F. Violência e psicanálise. 1984: p.172.

112COSTA, J.F. Violência e psicanálise. 1984: p.172.

113COSTA, J.F. Violência e psicanálise. 1984: p.173.

114HERRMANN, F. Clínica psicanalítica: a arte da interpretação. 1991 p.151.

115HERRMANN, F. Clínica psicanalítica: a arte da interpretação. 1991 p.160.

116MARTY, P. A psicossomática do adulto. 1993. (Esta bibliografia foi sugerida pelo Dr. Rubens Volich, por ocasião do exame de qualificação).

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